O mar cor-de-rosa do Cabo Branco: desvendando o fenômeno
Fenômeno vem tornando a praia do Cabo Branco, em João Pessoa, na cor rosa; Andrea Bezerra Cavalcanti desvenda o mistério
26/08/2020
26/08/2020

Imagem reprodução - Foto: Andrea Bezerra Cavalcanti
Por Andrea Bezerra Cavalcanti
O fenômeno que vem tornando a praia do Cabo Branco rosa está sendo causado pela remoção do sedimento na praia. A extração por escavadeira amassa e quebra o substrato pedregoso, que “sangra” e colore o mar com argila. A praia atualmente exibe poças cor-de-rosa em torno das “pedras” e a mancha rosa no mar aparece rente à ação da escavadeira.
Este sedimento pedregoso avermelhado vem aflorando intensamente nos últimos meses, prejudicando a paisagem, atrapalhando a passagem e o desfrute da praia. O sedimento está sendo exposto devido o aumento da erosão na praia e/ou está sendo movido do sopé da falésia para a praia do Cabo Branco. A origem geológica do sedimento que está colorindo a praia é o mesmo daquele na base da falésia.
Para atestar a origem do fenômeno, especialistas coletaram a água e o substrato para a análise química e biológica. Cientistas da UFPB investigam as alterações ambientais referente ao afloramento e indicam que a erosão vem sido intensificada pela intervenção de contenção da falésia do Cabo Branco, a obra de enrocamento.
Por recomendação dos órgãos ambientais, a remoção está sendo realizada com presteza, a fim resolver o impacto paisagístico. Questionados pela população e mídia, representantes da prefeitura alegam não haver nexo causal entre a obra e o afloramento, mesmo ocorrendo em datas subsequentes. O IBAMA confirma o evento através de parecer enviado ao Ministério Público da Paraíba.
O projeto de contenção da barreira está sendo dividido em 3 etapas: drenagem, enrocamento e quebra-mares. O projeto de execução da obra é apresentado no site da PMJP com apenas 66 páginas, omitindo itens e o estudo de impacto EIA/RIMA. A obra está supostamente autolicenciada, sem a devida transparência, nem um programa de monitoramento que verifique o fluxo dos sedimento e seus efeitos sobre a biota marinha. Não há dúvida que o alto aporte de sedimento no local já causa morte dos recifes do Cabo Branco.
Além de dispendiosa e de grande potencial de impacto, a obra pode estar potencializando a erosão, mostrando -se ineficiente para sua finalidade. As “pedras” avermelhadas na praia é uma prova indicadora de que a obra de enrocamento na base da barreira vem afetando a dinâmica das marés a ponto de interferir na reposição de areia da praia. É a retenção da areia que expõe as “pedras”, antes cobertas e retirá-las acentua o impacto.
Ambiente Costeiro Parte II
O estado da Paraíba possui uma linha de costa que estende por cerca de 140 km de extensão, que vai desde o estuário do rio Guajú (ao norte) até o estuário do rio Goiana (ao sul). A zona costeira é composta por 13 municípios, onde vivem cerca de 1 milhão de pessoas.
Características Geológicas
Com relação à Geologia, a área de estudo encontra-se integralmente na bacia sedimentar marginal Pernambuco-Paraíba, ou seja, foi a última plataforma Sul-americana a se separar do continente Africano, durante a abertura do Oceano Atlântico (Françolin, Szatmari, 1987). Além disso, a bacia Pernambuco-Paraíba se subdivide em Sub-Bacia Miriri, Sub-Bacia Alhandra e Sub-Bacia Olinda. Para o caso da Paraíba, as duas primeiras sub-bacias mencionadas abrangem a área costeira do estado.
Características Geomorfológicas
A área de estudo está inserida, basicamente, em dois domínios geomorfológicos distintos, cada um dos quais abrangendo várias unidades morfológicas. Os domínios recebem as seguintes denominações locais: Baixos Planaltos Costeiros e Baixada Litorânea.
Métodos e Resultados
Para o trabalho proposto por Silvana Neves, José Maria Dominguez e Abílio Bittencourt, a linha de costa foi percorrida por buggy e sobrevôo, também foram realizadas coletas de amostras de sedimento da face da Praia e a partir daí realizadas as devidas análises até chegar nos seguintes resultados:
42% da zona costeira apresenta recuo da linha de costa;
33% experimenta progradação;
21% está em equilíbrio e
4% apresenta estabilidade por obras de engenharia.
Conclusões
A linha de costa da Paraíba já se encontra num panorama de erosão motivada pelo deficit de sedimentos, então, é necessário atentar também a outros fatores erosivos, tais como:
(i) concentração de energia de ondas devido ao fenômeno de refração em feições morfológicas submersas,
(ii) ocupação desordenada da zona costeira, e
(iii) retenção de sedimentos fluviais devido à construção de barragens, devem igualmente ser considerados ao se analisar as causas da erosão costeira.
by Lucas
O Ambiente Costeiro
De forma geral, as características do ambiente costeiro mais relevantes se dão pelo fato de sua extrema dinâmica e suas diversas reações às alterações do meio físico. As atividades humanas também são capazes de causar essas interações, a exemplo de construções portuárias, que se caracterizam por serem obras rígidas e que aceleram o processo de erosão costeira. Vale também ressaltar que as praias mudam sua forma e o local, logo, precisam de espaço para seguir seu fluxo natural. Atividades humanas que avançam demais sobre o ambiente costeiro são responsáveis pela retenção ou perda de sedimentos daquele local.
Erosão como Problema
De acordo com os estudos de Souza et al. (2015, p.140) a erosão é vista de forma negativa quando torna-se um problema severo e permanente ao longo de toda a praia ou em determinado trecho dela, ameaçando assim, áreas de interesse ecológico e socioeconômico.
É importante frisar que a erosão, em condições normais, não faz desaparecer os sedimentos, logo, se algum trecho de linha de costa experimenta erosão, os sedimentos erodidos serão transportados para trechos adjacentes, que assim, devem experimentar programação ou recuperação de processos erosivos anteriores.
Erosão Costeira na Paraíba
Sobre a situação costa paraibana é importante destacar que parte da costa já se encontra ameaçada de erosão, uma vez que o setor que a Paraíba se encontra é caracterizado por ter uma tendência de longo prazo à erosão. Esse fato pode ser evidenciado a partir dos trabalhos de Dominguez & Bittencourt (1996), onde explicam que a quase ausência de terraços marinhos do Holoceno e do Pleistoceno é apontada como principal evidência para esta tendência.
Características Físicas
Levando em consideração a Geomorfologia Costeira, Dominguez et al (2016) subdividiu a costa paraibana em três compartimentos:
Compartimento I - Numerosas as formações recifais franjantes, Paleo-falésias da Formação Barreiras, grandes voçorocas causadas por erosão fluvial e salientes na linha de costa pela disponibilidade de sedimentos.
Compartimento II – Os depósitos Quaternários com maior expressividade, não há presença de falésias ativas, As construções recifais e os arenitos de praia favoreceram o desenvolvimento de mega-salientes, como em Lucena, Cabedelo e Ponta do Hotel Tambaú.
Compartimento III – A linha de costa nessa área apresenta uma geometria mais retilínea, as construções recifais estão ausentes com exceção da entrada da baía da Traição, formação de alguns salientes, como na baía da Traição e em Coqueirinho e falésias que se tornam ativas em alguns trechos.
Continua